Depressão entre adolescentes cresce em silêncio e preocupa especialistas
A depressão na adolescência tem se consolidado como uma das principais preocupações da saúde mental no século XXI. O que mais alarma especialistas não é apenas o aumento de casos, mas a forma silenciosa com que o sofrimento emocional se manifesta entre jovens.
Diferentemente do senso comum, muitos adolescentes com depressão não apresentam sinais evidentes de tristeza constante. Eles frequentam a escola, interagem socialmente, participam de atividades familiares e, ainda assim, convivem com sentimentos profundos de vazio, desesperança e exaustão emocional.
“O adolescente aprende muito cedo a esconder o que sente”, explica a psicóloga clínica Mariana Figueiredo. “Existe uma pressão social enorme para parecer forte, produtivo e feliz, mesmo quando isso não corresponde à realidade interna.”
A psiquiatra infantil Laura Mendes ressalta que a depressão nessa fase raramente se apresenta de forma clássica. “Em vez de tristeza, vemos irritabilidade constante, agressividade verbal, apatia, dificuldades de concentração e perda de interesse por atividades que antes davam prazer.”
Sinais que passam despercebidos na rotina
Entre os principais sinais observados por profissionais estão alterações persistentes no sono, mudanças no apetite, queda acentuada no rendimento escolar e afastamento progressivo de amigos e familiares.
No entanto, esses comportamentos ainda são frequentemente interpretados como “drama”, “preguiça” ou “fase da adolescência”. Para o psicólogo Eduardo Ramos, essa leitura superficial pode ser perigosa. “Quando o sofrimento é minimizado, o jovem aprende que não deve falar sobre o que sente.”
A pedagoga Cláudia Silveira destaca que a escola é um espaço estratégico de observação. “Professores atentos percebem mudanças sutis: um aluno que antes participava passa a se isolar, outro que tinha bom desempenho começa a apresentar queda significativa.”
Pressões sociais, expectativas e o impacto das redes
A adolescência é um período marcado por intensas transformações físicas, emocionais e identitárias. A isso somam-se cobranças acadêmicas, expectativas familiares e a necessidade de pertencimento.
Com a popularização das redes sociais, essas pressões se intensificaram. “O jovem se compara o tempo todo com versões editadas da vida alheia”, afirma a pesquisadora em comportamento digital Natália Pires. “Isso gera sensação constante de inadequação.”
O psiquiatra Rogério Fontes explica que o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas ligadas à regulação emocional. “Isso torna o jovem mais vulnerável a frustrações, rejeições e críticas.”
O papel da família no acolhimento
Especialistas concordam que a família exerce papel central na prevenção e no enfrentamento da depressão. Ambientes onde o diálogo é aberto e sem julgamentos tendem a oferecer maior proteção emocional.
Para a terapeuta familiar Paula Nogueira, o acolhimento começa pela escuta. “Não é sobre resolver tudo, mas sobre validar o sentimento do jovem.”
Reconhecer a dor emocional não enfraquece o adolescente. Pelo contrário, cria base para que ele desenvolva recursos emocionais saudáveis.



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